novembro 03, 2011

"Bolsa não é para pessoas físicas", diz especialista



Pequenos investidores teriam poucas chances de ganhar dinheiro com ações devido à composição do índice Bovespa

Marcel Salim/EXAME.com
Pregão da Bovespa
Pregão da Bovespa: composição do Ibovespa não favorece pequenos investidores
São Paulo – O que segue abaixo é o depoimento de um especialista em finanças que já serviu de fonte de informação para centenas de reportagens sobre a bolsa. Sob a condição de não ter seu nome publicado, ele fez uma análise bastante sincera sobre a chance de as pessoas físicas ganharem dinheiro no mercado acionário e os motivos para a fuga de 38.000 investidores da bolsa nos últimos 12 meses - tema da reportagem de capa da edição de EXAME que está nas bancas. Seguem abaixo os principais trechos da conversa:

Pegue o caso da Petrobras, que responde por 13% do índice. A empresa fez a capitalização no ano passado, em uma operação que foi bastante interessante para o governo, mas gerou prejuízo para os acionistas minoritários. O mercado ainda não esqueceu a forma como o controlador da empresa conduziu todo o processo, principalmente em relação ao preço estabelecido para a compra dos direitos de explorar 5 bilhões de barris de petróleo no pré-sal.“A bolsa não é para pessoas físicas. A maioria dos pequenos investidores não tem tempo nem conhecimentos técnicos para selecionar as melhores ações e montar uma carteira vencedora com o gerenciamento de risco adequado. Quem não acompanha o mercado acaba fazendo um investimento passivo em ações, colocando dinheiro em um fundo que segue um índice como o Ibovespa. Isso não seria nenhum problema se a bolsa não permitisse que tantas empresas com problemas de governança fizessem parte do principal termômetro do pregão paulista.

O problema é que em cinco anos o governo terá o direito de rever o valor já pago pela estatal, dependendo do resultado que a Petrobras tiver na exploração desses barris. É lógico que os resultados podem ser muito bons, mas outro dia eu conversei com i gestor de um fundo de investimentos e adivinhe qual é seu maior temor em relação à empresa? Que o governo se aproveite para novamente drenar os recursos da Petrobras. É isso que hoje afasta investidores de todo o mundo das ações da estatal.
Outro exemplo é o das companhias do bilionário Eike Batista, que hoje têm um peso somado de 8% do Ibovespa. A MMX, a LLX e a OGX são empresas pré-operacionais, que ainda não geram receitas relevantes. Não sei avaliar se essas companhias vão ser bem-sucedidas ou não. O problema é que, quando uma empresa entra no Ibovespa, muitos fundos de pensão e outros vão ter de colocar essas ações na carteira porque, por estatuto, seguem o indicador. Não acho que pessoas que estão poupando para se aposentar deveriam necessariamente correr esse risco.
Os problemas de governança das empresas do índice vão além. Temos também a Hypermarcas. Em poucos meses, as ações da empresa despencaram de 29 para 9 reais. Quando estavam no pico, muitos analistas recomendavam a compra dos papéis com a justificativa de que a empresa estava colocando em prática uma estratégia bem-sucedida de aquisições. Hoje em dia, fica claro que ninguém sabia exatamente o que essa empresa comprou.
A decisão da BM&FBovespa de privilegiar a liquidez na hora de decidir quais papéis farão ou não parte do principal índice de ações brasileiro também permitiu que a Brasil Ecodiesel entrasse no Ibovespa. Essa companhia chegou ao mercado com a promessa de se tornar líder em biodiesel no Brasil. Poucos anos depois, a empresa mudou de nome para Vanguarda e nem produz mais combustíveis renováveis. Virou uma empresa de agronegócio. O investidor que comprou o papel na oferta pública por 12 reais hoje tem uma ação que vale centavos.

Não vejo problemas de governança em Vale e nas siderúrgicas, mas as expectativas do mercado para essas empresas, que respondem por 21% do Ibovespa, não são muito boas. Os investidores acreditam que o preço do minério de ferro deverá recuar nos próximos anos. Então não tem como o Ibovespa se valorizar muito num cenário como esse.
Temos ainda as empresas do grupo Oi, que está no meio de um processo de reestruturação societária bastante criticado pelos minoritários.
O que sobra então dentro do índice? As ações dos grandes bancos e algumas outras exceções. Não sei se somente esses papéis conseguiriam levar o índice como um todo para cima num cenário como o atual.
Eu acho que a BM&FBovespa deveria fixar critérios que fossem bem além da liquidez ao avaliar a composição da carteira do Ibovespa. Deveria ser algo parecido com o índice Dow Jones, em que as empresas da carteira são escolhidas a dedo. Ou então um índice mais amplo, como o S&P 500, que engloba as 500 maiores empresas com ações negociadas em Nova York.
Pessoalmente eu acredito que há empresas baratas na bolsa e que comprar ações aos pouquinhos em momentos de fortes quedas pode ser bastante lucrativo. Da mesma forma que a bolsa está em uma maré de baixa hoje, certamente virão tempos melhores em um algum momento no futuro. O problema é que, do jeito que as coisas estão hoje, não sei se as pessoas físicas conseguirão pôr em prática uma estratégia que lhes permitirá colher lucros quando a recuperação vier.”